É verdade que as crianças hoje em dia não dão valor a nada?

É verdade que as crianças hoje em dia não dão valor a nada?


É verdade que os miúdos hoje em dia dão menos valor às coisas?
Sim, é verdade! Vivemos numa sociedade muito consumista e é muito difícil dar-se valor às coisas quando em nossa casa existe abundância.

 

Lembro-me da história de uma avó cujo neto tinha uma adoração por um carrinho de madeira azul. Nunca largava aquele carrinho, era uma loucura. A avó, na melhor das suas intenções foi comprar um conjunto de outros carrinhos de madeira. Uma semana depois, a criança não brincava com mais nenhum carrinho. Ela gostava daquele. A resposta ao presente foi muito clara: ela não precisava de mais nenhum carrinho.

 

Não é possível darmos valor quando à nossa volta não há espaço nem tempo para se dar valor. É preciso criar-se espaço para o essencial.

 

Porque é que quanto mais têm menos satisfeitos estão?
Justamente por causa disso – pelo facto de haver muita coisa, não temos como apreciar tudo o resto porque há demasiada informação à nossa volta.

 

Quando temos o essencial conseguimos olhar para aquilo que realmente é importante.

 

Podemos dizer aos miúdos que há miúdos que têm menos que eles mas mesmo assim eles não estão satisfeitos. Como é que os convencemos?
Não sei se os chegamos a convencer. O que está a faltar, da nossa parte talvez seja o seguinte. Perceber se eles querem mesmo essas coisas todas ou se gostam muito daquilo que nos estão a mostrar e querem apenas partilhar connosco. Não é porque eu estou a ver um catálogo de roupa ou de decoração ou de outra coisa qualquer que vou querer todas as coisas. Há coisas de que gosto muito, outras que gostaria de ter mas que sei não posso ou, na verdade, nem quero, e outras que preciso mesmo e quero. Por isso é importante que possamos saber o que é que os miúdos nos estão a dizer. E é muito simples descobrirmos se pararmos e nos interessarmos pelas coisas que eles nos estão a dizer e a mostrar. Por vezes basta sentarmo-nos com eles a ver os catálogos, basta pegarmos na embalagem ou, se for possível, deixarmos brincar um pouco com esse brinquedo para eles ficarem satisfeitos e passarem a outra coisa. Na maior parte das vezes não é preciso mesmo mais nada.

 

Quando, mesmo assim, eles continuam a querer alguma coisa que não podemos dar, é necessário dizer-lhes isso, tranquilamente

 

‘Eu sei que gostavas muito de levar isto mas não vai ser possível. Agora precisamos de vir. Nos mais pequenos podemos dar a hipótese de ‘Vens aos saltinhos ou no colo da mãe’, nos maiores, dando uma tarefa ou apenas esticando a mão.

 

Têm o direito de ficarem chateados por não terem o que querem e nós não temos de os ir salvar ou dar outras coisas em troca. É um processo deles.

Existe alguma fórmula milagrosa para ensinarmos os miúdos a darem mais valor às coisas

Mágica, não. Existe aquilo que nós fazemos todos os dias – não correr a tudo o que é promoção, dar valor ao que temos de formas simples como dar valor a uma refeição bem feita, ao calor que está em casa, ao facto de estarmos todos reunidos e bem. Repararmos que é mais fácil arrumar os brinquedos quando não há tantos brinquedos à disposição. Repararmos que os miúdos, muitas vezes, dão muito mais valor a brinquedos básicos como as plasticinas e os papeis para desenharem.

 

E depois devemos ensinar-lhes a dar valor, promovendo isto mesmo em nossa casa através do caderno da gratidão ou da gratidão num frasquinho.

 

É verdade que é uma ideia americana mas aos poucos, vou criando o hábito de dar graças pelo que temos, no final do dia.

 

Porque é que isto é maravilhoso?
1: Porque partilha o que de fantástico teve nesse(s) dia(s) – e ao partilhar está também a aumentar a minha felicidade e a dela, pelo prazer da partilha!

 

2: Está a sublinhar o que de facto tem valor para a criança;

 

3: Foca-se no bom e deixa o menos bom de lado – sim, este é o objectivo – é a gratidão e por isso são apenas coisas boas. As más deixa-as para outro momento.

 

4: Adormece com fé e esperança no dia de amanhã e sinceramente não há sentimento mais forte de segurança que este.

 

Por Magda Gomes Dias, especialista em Parentalidade

 

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